Vida fumê

fume

Estava um dia lindo e nos sentamos para almoçar, famintos. A vista era muito bonita e me lembro de ter pensado: pena que nublou rápido, o dia estava tão ensolarado… será que vai chover? Levei apenas alguns segundos para me dar conta que o sol continuava cumprindo o seu horário, o problema é que o vidro era fumê…

Essa forma plasmática em sua versão enfumaçada (você sabia que o vidro é um líquido de alta viscosidade?) tem o poder de descolorir o dia, fazer desmaiar as cores e até tornar o cenário um pouco ameaçador. A pergunta que não fica quieta é por que as pessoas escolhem ver o mundo desbotado de livre e espontânea vontade? E por que ainda topam pagar mais caro por isso?

A minha implicância com o vidro fumê não vem de hoje – nunca gostei desse efeito. Tem a versão original, com pigmentos no próprio vidro, e tem a versão película (algumas em estranhos tons de roxo). Nos anos 80 e 90 eles viveram o ápice do reinado obnubilado em diversas tonalidades; era sinal de elegância, classe e requinte. Sempre achei que essas três coisas fossem melhor traduzidas com limpeza, transparência e valorização da luz, mas acho que sou minoria. O que vale é que os arquitetos contemporâneos decretaram que vidro fumê está datado e praticamente aposentaram esses odiosos elementos em seus projetos. Mas nos carros, o fumacê continua bombando.

Lembro de ter andado de carona no veículo de um amigo, de vidros escuríssimos. A sensação foi horrível, o dia lindo parecia esconder uma tempestade. Também fiquei pensando como é que ele conseguia enxergar por trás daquela cortina preta? Se num dia de sol mal se enxerga alguma coisa, imagina só em dias chuvosos?

Não vamos discutir o duvidoso efeito estético que uma película provoca no design de um veículo, pois isso é gosto pessoal – se a pessoa acha lindo, fazer o quê? Até porque, boa parte dos peliculosos alega que usa esse artifício por questões de segurança.

Vamos então analisar esse ponto: segurança de quem? Para o motorista que está atrás, a película é insegura, já que não se consegue enxergar através do carro – é como se um caminhão se postasse à sua frente. Para o motorista que está num cruzamento, saindo ou entrando de uma rua, a película também é um risco, pois ele não consegue ter certeza de que o motorista das trevas conseguiu vê-lo e ter ciência da manobra – o contato visual é totalmente perdido. O mesmo vale para pedestres que vão passar perto do carro ou atravessar a rua. Para o próprio condutor do bólido escurecido, fica difícil de enxergar as coisas direito, principalmente à noite. Ele pode, inclusive, dirigir com um assaltante lhe apontando uma arma no banco do carona, pois ninguém verá (a película não “protege” se a pessoa for abordada enquanto entra no carro). Se a película realmente defende alguém contra assaltos, a mensagem que ela transmite, mesmo sem adesivos, é: “Minha segurança em primeiro lugar, o resto do mundo que se dane!

Ok, ainda há os que alegam usar o recurso para que o carro não esquente muito com o sol. Legal, mas se essas pessoas estão tão preocupadas com problemas de refrigeração, por que continuam a comprar carros pretos? E mesmo assim, o seu conforto térmico vale o risco?

Para mim, o único argumento que justifica uma pessoa usar película, seja no carro, em casa ou em qualquer outro lugar, é porque acha bonito ou então porque não suporta mais tanto colorido. Pois é. Gosto não se discute e cada um olha o mundo com as lentes que escolhe.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

3 Respostas to “Vida fumê”

  1. Pedaleiro » Películas, esta praga Says:

    […] eu fiquei muito contente quando li este artigo da Lígia Fascioni: Vida fumê. Olha só, um pequeno trecho do que ela escreveu: … Vamos então analisar esse ponto: […]

  2. Renato Says:

    Pois é, Lígia. Os pedestres e ciclistas são as maiores vítimas da famigerada película, aqui chamada de Insulfim. É isto o que acontece quando se junta uma brecha na lei e um bando de ignorantes.

  3. Ivan-MS Says:

    Lígia, parabéns por abordar a matéria. Há anos uso película(bastante leve, apenas para propiciar um pequeno conforto) em meu carro, e sempre fui terminantemente contra essa idéia de “lacrar” os vidros com o filme pelos motivos muito bem observados por você. Pena que para alguns o bom senso e a moderação não tem graça e a aplicação da lei é bastante falha, com a conivência de alguns instaladores pouco (ou nada) conscientes, que fazem propostas aos seus clientes que sequer convem comentar. Lamentavelmente mitos como o de um pretenso aumento de segurança contra assaltantes ainda estão disseminados (na verdade, alguma segurança somente contra o estilhaço de vidros temperados, em caso de quebra), e os excessos costumam fazer moda (assim como o desrespeito às leis) para muita gente que pensa que pensa apenas em si.
    Abraços!

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