Sustentabilidade de quê?

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Hoje estava saindo da garagem do meu prédio quando me deparo com um carro na calçada bloqueando a passagem (parte da rua e parte da calçada). Havia uma fila de carros atrás e eu querendo sair. Pensa que o sujeito se perturbou? Que nada, continuou a se despedir de maneira entusiasmada de duas senhoras que pareciam ser suas tias, enquanto descarregava uma inacreditável quantidade de sacolas e objetos diversos. O motorista atrás dele (não fui eu), deu aquela buzinadinha básica, acreditando que o sujeito estivesse distraído, e o que ganhou de volta? Um belo xingão, acompanhado do clássico gesto do dedo médio em posição destacada. Pensa que as “tias” ficaram vermelhas (antigamente ficavam, pelo menos as minhas). Nem sombra. Ainda deram risadinhas e continuaram a conversa. Esperar o quê de um sujeito que aparentemente foi educado por essas “ladies”?

Veja se a sensação não é de “déjà vu”: você entra num avião e uma senhora carregada de sacolas como se estivesse se mudando de país em parcelas mensais ocupa absolutamente todo o compartimento para malas e ainda mais um banco. Você pede um lugarzinho para colocar seu notebook e ela explica sorridente que não dá, pois ela está com muita bagagem.

As pessoas páram para conversar na rua e nos corredores, é natural. Mas ultimamente tenho observado uma predileção por locais de passagem, perto de uma porta, por exemplo. É onde se consegue impactar (e atrapalhar) a vida do maior número de apressados; então deve ser mais legal, né?

Você pára no sinal vermelho atrás de um carro e o sujeito só começa a pensar em destravar o freio de mão e engatar a primeira marcha depois que o veículo na frente dele andou pelo menos 100 metros. A manobra pode levar mais tempo se o motorista zen estiver conversando pelo celular.

Quem nunca pegou ônibus com estudantes portando mochilas gigantescas, quase casulos de sobrevivência para uma família de 5 pessoas? Desnecessário lembrar que esses portentosos volumes ficam bem no corredor, justamente para interromper melhor o fluxo de passantes.

Caixa no supermercado? Essa é clássica: quanto maior a fila atrás do folgado, mais ele se lembra na última hora que precisa pegar uma coisa importantíssima no último corredor, a mais ou menos 2 km de distância. E o mundo que espere enquanto ele não voltar da viagem.

E por que as pessoas deixam para procurar as coisas que precisam pagar justamente quando chegam no caixa do banco, se tiveram uma fila inteira de ociosidade pra encontrar seus preciosos papéis?

Em restaurantes movimentados e praças de alimentação costumam bater ponto as figuras insensíveis que continuam conversando calmamente após terem raspado o prato enquanto alguém em pé espera, pacientemente, com a comida esfriando.

Pois é, a impressão que dá é que as pessoas estão ficando cada vez mais egoístas e grosseiras, comportando-se como fossem as únicas donas do mundo. Não se importam com mais ninguém, agem como se o mundo girasse em torno delas.

Alguém apressadamente pode argumentar que antigamente as pessoas eram mais polidas. Sei não, a julgar pela quantidade de idosos mal-educados que existem por aí (eles competem de igual para igual com adolescentes revoltados), acho que sempre foi assim.  A diferença é que hoje o mundo está mais cheio de gente e os espaços mais apertados, então o conflito fica mais evidente.

Fico pensando: o que adianta lutar pela sustentabilidade do planeta se a gente não pensar na sustentabilidade da convivência entre as pessoas?

Acho que a gente devia fazer algo a respeito… Idéias, por favor!

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

10 Respostas to “Sustentabilidade de quê?”

  1. Renato Says:

    Que bom ler isto! Eu achava que era o último chato de galocha da paróquia, pois poucos se sentem incomodados com esta situação. E ai de você se reclamar, já passa a ser chamado de estressado e outras coisas não publicáveis.

    Eu também estou de saco cheio desta gente mal-educada!

    Idéias? Bem, acho que o melhor remédio e ser muito educado. Isto costuma deixar estas pessoas envergonhadas.

    Renato

  2. Thiago Valenti Says:

    Lígia,

    Será que dá pra botar a culpa novamente na sociedade capitalista pós-moderna?

    Antigamente (um pouco mais antigamente), viver juntos era questão de sobrevivência, necessidade, simplesmente porque não tinha supermercado, nem a facilidade de se achar tudo na esquina (e claro, o dinheiro hoje, literalmente, compra tudo).

    Essa facilidade e sensação de “independência” faz com que as relações pessoais se distanciem, e o EU fica cada vez mais sobressalente. O comportamento humano é de uma complexidade incrível, e se nota isso principalmente quando você fica apavorado com as atitudes de certos seres, que parecem achar que estão sozinhos ou são os donos do mundo…

    Complicado, muito complicado…

  3. Raphael Lopes Says:

    eu tenho a impressão que o mundo todo anda muito mais irritado com tudo…
    “mas se alguém mostra o dedo do meio pra mim por que não quer tirar o carro da minha frente, eu pego meu porrete (já previamente preparado) e dou um safanão na cara do sujeito, com direito a puxadas de cabelos nessas senhoras ai que aparentemente não tem o que fazer… deviam estar jogando bingo, essas velhas mocorongas!”…

    ta vendo com o mundo anda estressado?!

  4. Tereza Jardim Says:

    Sabe que a situação que mais me irrita nisso é no supermercado?

    Outro dia, depois de quase uma hora e meia me espremendo entre carrinhos cheios abandonados nos corredores, me deparei com uma “madame”, carrinho atravessado encostando numa gôndola e ela escolhendo um produto do outro lado. Eu ia pedir licença, mas resolvi “bater” sem querer no carrinho dela e pedir desculpas com a cara dura… Lavei a alma nesse dia!

    Essas pessoas espaçosas estão por toda parte, é uma praga sem remédio. Custa fazer as coisas de forma a não atrapalhar a vida dos outros? Custa pagar as contas nos caixas que não disponibilizam saque,já que geralmente quem saca dinheiro tá com pressa, e o faz rápido? Custa colocar o mochilão no chão? É o que eu sempre faço, não dói e ainda descansa os ombros…

  5. Thiago Peixoto Says:

    Matem todas!

    Brincadeira, mas a cada dia percebo mais isso e pior, fico mas desapontado por não conseguir pensar em uma solução.

    Ah, sei lá, quero falar tanta coisa que me dá até preguiça. Fica pra próxima, mas concordo muito com você.

    Abs,

  6. Karla Says:

    Oi, Lígia. Sempre é ótimo ler o que você escreve… A DO RO!!! E o melhor foi ver que eu não estou ficando uma “velha ranzinza” como pressupunha… o problema está nos outros e não em mim… que consolo!!! Pessoas mal-educadas, egoístas, insensíveis, que só vêem o seu próprio umbigo e não estão nem aí para os demais… resultado, sim, de um mundo e uma sociedade cada vez mais individualista e egocêntrica, concordo! Somos fruto do meio em que vivemos, mas devemos tentar combater isso, não? Gentileza e boa educação nunca sairão de moda, ou será que já saíram??? Confesso que travo batalhas diárias comigo mesma, pensando em “ser ou não ser” uma pessoa educada, gentil e politicamente correta… está cada vez mais difícil! Muitas vezes já me flagrei agindo tal e qual quem eu condeno… o que fazer? Continuar a dar murro em ponta de faca ou desistir de uma vez? Quem vai saber??? Beijo, Lígia!

  7. Marcelo Says:

    Olá Lígia,
    Não vou rasgar elogios pq sempre a mesma balela enjoa … apesar de aumentar o ego!
    É certo que as pessoas estão vivendo cada vez mais isoladamente nos dias atuais, apesar de ter apenas uma parede (do apto) separando uma das outras. Isso faz com que possam fazer o que bem entendem, na hora que bem entendem … apenas se esquecem que muitas vezes não estão em suas casas!
    Para lidar com esses “caras folgados” é preciso ser bem educado, mas é recomendado o uso luvas para não sujar as mãos.
    Vejamos, se o cara te apontar o dedo médio, não brigue com ele, nem responda. Atire um beijinho, e, se possível o chame de quiridu (Se ambas pessoas forem do sexo masculino, então … cai feito uma bomba!!).
    Ninguém precisa se apertar ou aturar a falta da dose diária de “simancol” ou “desconfiômetro” das pessoas, mas também não precisa faltar com classe pra dizer e … deixar a pessoa levemente corada.
    No avião diga: _ claro … pode usar o espaço que quiser. Comprei este bilhete especialmente pra vc colocar suas sacolas.
    No supermercado: _ pode buscar sua mercadoria … não tenho mais nenhum compromisso durante o dia.

    Mas sei que em situações como trânsito isso é impossível de aturar.
    E pior ainda qdo o cara é mais folgado que calça de pessoa que fez cirugia bariátrica e leva ao pé da letra … mas aí é caso perdido, passível de internação!
    Absss

  8. Rafael Says:

    Nossa!
    Se tem uma coisa q me irrita, é eu estar na calçada andando, e alguem anda bem no meio dela sem nem se preocupar se alguem quer passar… vai devagarinho…. ou entao pessoas que mexem com outras no meio da rua… com desconhecidos.. arrrrrgggg..

    eu não sei se sou chato ou não sei oq… mas to sempre me preocupando com oq ta acontecendo ao meu redor pra não encomodar os outros…

  9. Alberto Costa Says:

    Ooooba! Festival Anual de Lavação de Roupa Suja da Comunidade. Posso colocar “umas pecinhas” na Brastemp?

    Bem, minha paciência é desafiada por quem, guarda-chuva aberto, insiste em andar debaixo das marquises… ou pelo supermercado que, depois de criar largos e confortáveis corredores que parecem com uma Autobahn (como se chama a freeway alemã), trata logo de entupi-los com paletes de produtos em promoção, tornando impossível a circulação de carrinhos de compras nos estreitos espaços entre eles e as gôndolas.

    Como cantava o Ponto e Vírgula na década de (tão antigo, que já esqueci), “eu sou chato, cri-cri, pernilongo, chacrilongo, chacrilongo”. E faço questão de tornar-me ainda mais. Mas eu sei que o preço será pago só por mim – um mal-educado não sofre jamais com sua insensatez.

  10. Alberto Roberto Says:

    Adorei o que vc escreveu, principalmente sobre os idosos, que, muitas vezes, surpreendem pela grosseria.

    Estou extremamente aborrecido com alguns “office-olds” que chegam em filas enormes carregando um saco de contas a apagar e olham com desprezo para quem está em pé a 40 minutos, nem pedindo licença pra se enfiar na frente do próximo que seria atendido…

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