A arrogância do Sonho de Valsa

Passei a maior parte da semana passada participando do Congresso Brasileiro de Pesquisa & Desenvolvimento em Design, em São Paulo. O bom desses eventos é que a gente aprende um montão e conhece o que as pessoas estão pesquisando sobre design, moda, arte, web e áreas relacionadas. Algumas pesquisas são mais interessantes que outras, assim como as pessoas, mas sempre se ganha muito dando uma olhada com atenção.

A organização, como de praxe, providenciou palestras internacionais para a troca de experiências transoceânicas. Assim, pudemos assistir a uma italiana ler todas as suas transparências com uma voz monocórdia, uma inglesa encher de texto ilegível sua apresentação sobre tipografia como recurso de comunicação e um indiano mostrar artesanato em bambu que muitos projetos tupiniquins deixariam no chinelo. Uma pena mesmo essas pessoas virem de tão longe para fazer apresentações tão sofríveis. Do ponto de vista visual chegavam a ser constrangedoras, considerando-se o tema do evento.

Mas teve uma palestra que me encantou (aliás, não só a mim; o público todo vibrou). Foi a do brasileiro Agnaldo Farias, arquiteto, professor da USP, autor de livros, curador de exposições e crítico de arte. Gente, que prazer ouvir uma pessoa tão culta e cheia de carisma. Ele ia de Clarice Lispector a Chico Buarque, de Roland Barthes a Brancusi, passeava a sua erudição de maneira tão natural e bem-humorada que nos enchia de admiração. Aprendi pelo menos meia dúzia de palavras novas que nunca tinha ouvido antes.

Agnaldo passou pelo menos 30 minutos descrevendo o ritual de abrir e saborear um Sonho de Valsa. Ele comparou o bombom à arte. A arte se diferencia das demais atividades humanas principalmente porque não tem obrigação de possuir uma função prática. Arte só existe para o nosso deleite, para ser apreciada. Eventualmente pode servir para mais alguma coisa, mas não necessariamente. Exatamente como um Sonho de Valsa.

Atente para o fato de que o Sonho de Valsa não é comida, nem alimento. Quem criou o mítico bombom não estava nem um pouco preocupado com a nossa nutrição, nem com as vitaminas e o número de calorias. O tom magenta do celofane (cuja principal característica, além da transparência sedutora, é fazer barulhinho) faz a gente ver o mundo em cor-de-rosa quando coloca o papel na frente dos olhos e olha através dele. Você acha que o envoltório de alumínio serve para proteger a iguaria? Que nada, ele foi colocado lá com a única intenção de refletir a cor, encantar, atrair, criar suspense na prateleira. Tem coisa mais linda que uma cesta cheia de Sonhos de Valsa? O casal dançando na estampa da embalagem remete à sintonia profunda, ao amor eterno, à elegância suprema. O luxo dos luxos ao alcance de qualquer mortal.

Comer o bombom propriamente dito, é uma experiência à parte. A casquinha, à guisa de crosta terrestre, precisa ser mordida cuidadosamente para não afetar o núcleo macio, branco e com pedacinhos de castanha. É possível até analisar o caráter de uma pessoa observando a maneira como ela saboreia o mágico bombom. Agnaldo acha (e eu concordo), que um indivíduo que morde um Sonho de Valsa de qualquer jeito, atacando o magma junto com a casca, não merece nem ser comentado, é um perfeito sem noção da seriedade das coisas importantes do mundo. Um bruto insensível.

Depois disso tudo, o sujeito ainda nos deu uma aula de arte contemporânea para ninguém botar defeito. Um verdadeiro banho de cultura. No final, ele ainda nos brindou com uma frase que grudou na minha cabeça como uma fivela fashion coberta de strass. Leia com atenção e medite a respeito:

São os arrogantes que fazem o mundo evoluir.

É claro, pois, para criar algo novo, você precisa achar que pode fazer melhor do que tudo que já existe, que pode achar uma solução mais adequada do que todas as que já foram pensadas até hoje. Tem arrogância maior? Não tive oportunidade de conversar com ele no final, mas desconfio que partilhamos da mesma admiração pelo Dr. House.

A palestra da noite tinha por título “O designer humilde”. Não fiquei para assistir.

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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9 Respostas to “A arrogância do Sonho de Valsa”

  1. Ana Barroso Says:

    SENSACIONAL. Tem gente que é poesia.

  2. Márcio Guimarães Says:

    Querida Lígia, que texto delicioso (sorri muito, especialmente com o final, eu também não assistiria…), estou aqui lendo o Design do Designer pela 3ª ou 4ª vez, parabéns, sucesso sempre!

  3. Michelle Oliveira Says:

    Olá Lígia,

    Ameeeeei de paixão este post. Com certeza gostaria de ter estado lá para sugar cada momento e claro que mesmo lendo já fiquei louca de vontade de devorar “poéticamente”(hehe) um sonho de valsa. Que aliás, depois de tão cuidadosamente analisado, dá muito prazer ao paladar e aos olhos também!!

    Desconfio que há uma gama de “houseanos” espalhados por aí, acredite o cara é muito persuasivo, e totalmente fantástico. Ouso até fazer uma comparação: Digamos que o criador do personagem é a embalagem do bombom, o ator Hugh Laurie é a dita casquinha, e o escritor da trama (que possui textos fantásticos) é aquele miolinho maravilhoso do bombom!!…kkkkkkkkk….mto bom!!

    Mais uma vez, Parabéns Lígia!! Imagino que vc também ficou com água na boca após esta palestra.

    Abçs……e valeu por compartilhar!!!

    Michelle Oliveira
    Manaus – AM

  4. Silvana Isabel Francisco Gloor Campos Says:

    Lígia, obrigada por ter escrito esse texto e compartilhado conosco um pouco dessa palestra que deve ter sido, de fato, maravilhosa!
    Não esqueci das fotos de minhas gatinhas não, é que ainda estou lembrando onde estão as ditas cujas, eheheh. Assim que achar te mando, viu…e o Haroldo é fofíssimo, ai, ai…se eu fosse uma gata, acho que iria “cantá-lo”, eheh.Beijão!

  5. Jr Deckmann Says:

    Michele, ja disse tudo q se poderia ser dito, exemplificou perfeitamente a situação e a analogia ao Dr. house.

    e eu achava que estava ficando “doente” ao achar o personagem Gregori House, a personificação da “perfeição” humana.

    obs: prefiro ouro branco do que sonho de valsa hehe

  6. Thiago Says:

    Ahhh, essa ia ser boa pro meu aprendizado, não ia?!

  7. eduardo Says:

    Oi Lígia, eu do design.com.br aqui de novo enchendo o espaço!
    O Agnaldo Farias é foi meu professor de historia da arte na FAUUSP, onde estou cursando design… Ele realmente é fora de sério, e essa do bombom ele já havia nos contado (hum… olha lá ele repetindo as historinhas, safado!)… Mas de fato, ele é um show que num tem o que reclamar… Sua capacidade de articulação é maestral, seu dominio da língua é absoluto, e o modo como relaciona diferentes assuntos é o que o torna um dos maiores e mais respeitados críticos de arte do Brasil.
    Não fossem as aulas dele, meu blog sobre arte nunca teria sido iniciado…

  8. Rodrigo Alexandre Coelho Says:

    Também fui aluno de Agnaldo Farias no curso de Arquitetura e Urbanismo na USP (campus de São Carlos) e ele tem o fantástico poder de nos encantar com suas palavras e capacidade de articulação.
    Aliás, o Sonho de Valsa, é apenas um dos diversos e profundos exemplos de coisas absolutamente cotidianas, mas que estão repletas de arte e que nos envolvem em uma experiência que vai muito além do ordinário.
    Parabéns pelo post, a experiência realmente merecia ser compartilhada.
    Abraço.

  9. Eneida Fausto Says:

    Observar o cotidiano e extrair algo novo é uma arte.
    Adorei a aula.

    Quero um aquário de sonho de valsa.

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