Placas que não ajudam…

Toda vez que estou dirigindo e vejo uma placa com aquele símbolo que significa “dê a preferência”, não consigo deixar de imaginar o que a pessoa que fez aquilo tinha na cabeça quando desenhou aquele triângulo invertido (muito parecido com aquele usado para indicar que um carro está quebrado).

Sinais de trânsito fazem parte daquele conjunto de signos estudados pela semiótica que são condicionados, ou sejam, as pessoas aprendem seu significado por meio de uma convenção. Fica combinado, por exemplo, que toda vez que tiver um traço diagonal sobre a letra E quer dizer que nesse lugar não pode estacionar, mesmo que seja numa rua livre na frente do shopping Iguatemi. Se tiver um X sobre a letra, aí é porque nem sequer dar uma paradinha rápida com o pisca ligado pode.

 

Pois então, se a gente for pensar em termos de bom design, a sinalização deveria ser projetada de tal forma que todo mundo tirasse 10 na prova do DETRAN mesmo sem ter estudado. Bastava que os símbolos fossem bem escolhidos e pensados, que os critérios fossem claros e a mensagem fosse comunicada sem possibilidade de equívocos. Mas como é que alguém vai adivinhar o que um triângulo invertido tem a ver com a preferência para entrar numa via? Depois de muitos cruzamentos, cheguei à conclusão que aquilo era uma seta ao contrário (não avance), só que, contornada e sem preenchimento, fica sem cara de seta. Sei não, mas não me admira o número de batidas nos cruzamentos. Como uma sinalização enigmática dessas em um lugar onde ninguém estuda as regras, vão querer o quê?

 

Inclusive, já faz um tempo, vi na televisão que a Polícia Rodoviária Federal do Mato Grosso aplicou uma prova de sinalização a motoristas de caminhão. O índice de acertos foi vexatório, tinha gente dirigindo há 20 anos que errou quase todos os sinais. É, minha gente, além da cachaça, da cervejinha e do rebite, ainda tem o analfabetismo sinalizatório.

 

A revista abcDesign desse mês tem um artigo excelente sobre o assunto. Fernando Navia, Diretor do Curso de Design Gráfico da Universidade Católica Boliviana apresenta os resultados parciais de uma pesquisa sobre semiótica dos sinais de trânsito com informações aterradoras.

 

A primeira constatação, depois de pesquisar sinais no mundo todo, é que não há convenções que valham para todos, ou seja, os sinais não são universais. O que significa proibido ultrapassar aqui pode significar restaurante na Tailândia, ou um palavrão no Sudão, por exemplo.

 

A segunda conclusão, é que as mensagens são dirigidas aos veículos, não às pessoas; o sistema vigente dividiu o mundo entre pedestres e motoristas, contrapondo-os numa eterna disputa por espaço. Além disso, o sistema nasceu nas estradas para facilitar o fluxo de cargas e foi copiado automaticamente e sem adaptações para um ambiente completamente distinto, como a cidade. O enfoque é basicamente a engenharia e a infra-estrutura quando a sinalização deveria ser tratada como um problema fundamentalmente de comunicação associado ao design.

 

A idéia de usar sinais convencionais para sinalizar as estradas nasceu nos Estados Unidos e na Europa. A América Latina simplesmente importou alguns sinais de maneira aparentemente aleatória, sem considerar a estrutura de cores, tamanhos, estilos, formatos, categorias e subcategorias. Só para se ter uma idéia, os Estados Unidos tinham, em 2003, nada menos que 806 tipos diferentes de sinais divididos em 11 categorias; já a Colômbia tinha 314 sinais (6 categorias). Infelizmente o artigo não apresentava dados do Brasil, mas já para ter uma idéia das disparidades. 

 

Essa confusão toda aliada à falta de conceito conduz (sem trocadilhos) aos resultados que a gente vê todo dia: as pessoas simplesmente não respeitam a sinalização ou não a entendem (isso quando não a destroem). Já tive o desprazer de ver uma placa numa rodovia Federal que tinha a inacreditável mensagem “Acredite na sinalização”. Percebam que não era uma questão de entender ou respeitar — o governo estava pedindo que a gente simplesmente acreditasse. Pode? 

 

Outra placa que eu não engulo é uma que tem no morro da Lagoa da Conceição. Alguém pode me explicar o que significa “Evite jogar lixo na rodovia”? Como assim, evite? Será que eles ficaram sem jeito e acharam que era muito autoritário escrever “Não jogue lixo na rodovia”? E olha que estou falando só dos textos escritos (muitos com erros de português; crase parece ser um assunto desconhecido para os “redatores” das placas).

 

Navia alega que o principal obstáculo para a universalização dos sinais é a cultura dos diversos povos que podem interpretar os símbolos de maneiras muito variada. Mas penso que um estudo realmente sério e bem fundamentado poderia contribuir muito para reduzir os mal-entendidos e melhorar a relação das pessoas com veículos próprios e alheios. Por favor, contratem designers para bolar a sinalização nas cidades e nas estradas, eles estudam para isso mesmo!

 

É, pessoas, o problema do trânsito, além das condições das estradas, do álcool e da educação dos motoristas, ainda depende bastante mesmo da sinalização.

Acredite se quiser.

 

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

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5 Respostas to “Placas que não ajudam…”

  1. Daniel Campos Says:

    Perfeito Ligia!!

    Aquele triangulo ao contrario tbm me deixa desconjurado…
    certeza que o cara tava de porro qdo “projetou” aquilo!!!

    Parabens pelo excelente post!
    Grande abraço

    Daniel

  2. Cris Says:

    Ligia,
    Trabalho na CET aqui em Sampa, A pouco tempo atendi, via fone, uma senhora indignada com uma multa de trânsito por estacionar em local proibido…” então mocinha! E com “um corte” (\) é proibido estacionar… E com ” dois cortes ” ( X ) PLACA CANCELADA, minha filha…”

  3. João de Freitas Says:

    Oi Lígia!

    olha eu aqui de novo. =D
    Você deve ter visto um post da Luiza (http://webluv.wordpress.com/2008/04/26/aprenda-a-ler-as-placas/) para as pessoas decifrarem o que as placas querem dizer. Legal porque já são exemplos de placas do exterior (para o pessoal ver o quanto existe de diferença).

    Acho legal este assunto, porque podemos atribuir a realidade Web, onde diversos portais insistem em atribuir ícones que só os desenvolvedores conseguem entender (coisa de programador, como dizem aqui na empresa)(risos). Pelo menos na web, em proporções menores podemos fazer pesquisas Icon Sort e chegar a um consenso. Agora…. vamos pras ruas..entrevistar milhões de pessoas.. fica difícil… então, por enquanto, ou nós mesmo estudamos outras formas para aplicar… ou vamos continuar tentando decifrar o que danado essas placas querem nos dizer.

    Abração

  4. Requerido Says:

    “não consigo deixar de imaginar o que a pessoa que fez aquilo tinha na cabeça quando desenhou aquele triângulo invertido (muito parecido com aquele usado para indicar que um carro está quebrado).”

    bom, excelente proferssora e designer vc, mas mulher é sempre mulher no volante ashuuhsahusa
    bjx

  5. licio junior Says:

    deve esibir mas fotos

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