Reentrada no mundo corporativo

Minha irmã resolveu cumprir a minha cota na manutenção da humanidade e teve três filhos (o mundo acabaria se todos fizessem como eu, que não tenho nenhum). Por conta disso, acabou se afastando do mercado e agora está encontrando dificuldades para voltar. Esses dias ela escreveu uma carta à Catho, empresa de recrutamento e seleção, que, de tão realista (e bem escrita), achei por bem publicar aqui (afinal, esse sentimento deve ser compartilhado por pessoas que freqüentam esse blog).

Boa noite à equipe da Catho,

Aprecio muito o trabalho de vocês e as matérias em geral. Porém, muitas vezes acho que todo esse trabalho atual voltado para gestão de pessoas é muito falho. Digo isso, porque sou uma profissional afastada há 13 anos do mercado e mesmo acompanhando toda a sua evolução, me atualizando e inclusive fazendo uma pós-graduação, me sinto cada vez mais distante de um retorno.

Sinto isso porque infelizmente as empresas insistem em solicitar pessoas “dinâmicas”, com “qualificação profissional”, “disponibilidade”, “arrojamento” juntamente com a exigência de  experiência de alguns anos e preferencialmente (senão obrigatoriamente) recentes. É claro que experiências antigas se tornam obsoletas em muitos casos, porém responsabilidade, maturidade, discernimento,  só se consegue através do tempo. É inacreditável como os setores evoluem, profissões novas vão surgindo e a maneira de escolher um profissional continua praticamente a mesma.

Percebo que sobram muitas vagas, e muitos profissionais ainda estão sem emprego. O que será que acontece? Mesmo uma empresa não trabalhando da mesma forma que a outra, ou não querendo pessoas com “vícios” de outras empresas, preferem chamá-las pelo tempo que já trabalharam  nestes lugares. Aí eu me pergunto:  — Não existe espaço para a honestidade, para a disposição de um recomeço, para a vontade de aprender? Penso que o que importa ainda é um currículo “hipócrita”, onde são descritos ou omitidos fatos conforme o gosto do “freguês”. Será que não percebem que tem alguma coisa errada? Vejo uma necessidade urgente de mudança. É importante o dinamismo do jovem, sua sede de viver, porém é importante também a sensatez, o conhecimento, a experiência de vida e a frieza em certas ações, percebidas normalmente em  profissionais mais velhos.

Enfim, me vejo ainda em cinzas, espero conseguir ser uma FENIX.

grata pela atenção,

Andréa Cristina Fascioni Ferraz
andreacfferraz@globo.com

Atual ocupação: Administradora de uma família com três filhos com todos os encargos exigidos, tais como: economia, administração financeira, administração de pessoas, conflitos, qualidade e logística.
Formação: Administração de empresas com pós-graduação em Gestão de Recursos Humanos
Trabalhos atuais não remunerados: coordenação de equipes de teatro, cujos temas desenvolvidos são para a educação infantil e familiar; auxílio criativo e artístico para entidade do terceiro setor.
Hobbie: Observar a administração das micro empresas sob a ótica do consumidor e detectar as falhas de treinamento e má formação profissional, também apreciar e detectar as qualidades daquelas que conseguem se destacar no mercado.

NOTA: o assunto rendeu uma matéria no Jornal Carreira e Sucesso da Catho. Clique aqui para ler.

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6 Respostas to “Reentrada no mundo corporativo”

  1. Felipe Says:

    Oi, fiquei muito tempo sem entrar no seu blog. Comento raramente, mas não posso deixar de comentar agora.
    Primeiro sobre o mercado de trabalho, eu ainda sou novo e começo minha faculdade de design esse ano, mas vejo pelo meus pais. Meu pai formado em publicidade e trabalhando com minha mãe no negócio deles de RH, se não fosse assim eu e meu irmão não teriamos chances de estudar onde estudamos.

    Outra coisa é sobre o blog Design, eu ia comentar lá, mas tinha tanta gente comentando e brigando que você nem ia ler..hehe
    qro falar que o texto está certeiro! e, como eu disse, começo meu curso esse ano com muita vontade de mudar tdo isso que se passa na área, buscando reconhecimento e alternativas de aplicar o design cada vez mais em outras coisas. Seu texto me motivou ainda mais!
    Parabéns e obrigado.

  2. popdesign Says:

    nossa impressionante mesmo. o mercado anda muito cruel e no fundo, o que as pessoas querem é pagar o mínimo possível mesmo que a pessoa corra atrás. não pode é desanimar.

    atualmente estou buscado mudar de cidade por motivos pessoais. me ligam e me procuram, mas ainda não encontrei um local que pague pelo menos o que ganho hoje (e diga-se de passagem, não é um super salário…)

  3. Ligia Inhan Says:

    Andréa, persista na verdade!
    É tudo uma questão de sintonia, só encontramos o que realmente procuramos…
    Abraços
    LIM

  4. Erasmo Rizzuto Says:

    Pelo visto, o talento é de família! Parabéns pela visão crítica e pela fluidez das palavras, Andréa!

    Eu também tentei entrar no tal “mercado de trabalho”, na verdade, um navio negreiro, onde as empresas se dão ao direito de escolher empre-gados, ou seja, empregados humanos, tratados feito gado, ou, pior, feito tomates na feira, apalpados e descartados sem dó.

    Me revolta é ver a facilidade com que compramos produtos mal projetados, votamos em bandidos, aceitamos programas de TV e artistas sem o menor talento e, na hora em que vamos procurar emprego, exigem exame de próstata para as mulheres e papanicolaou para os homens (e tem de ser exame recente, não vale de outra encarnação).

    Pior que ser preterido numa seleção, é saber que basta alguém colocar um litro de silicone para virar celebridade, ou, então, enfiar uma bola dentro de uma rede, como se isso fosse mudar o curso da humanidade. Esses seres iluminados, para chutarem bola e encherem os peitos, ganham um zilhão por minuto, ficam mais ricos até enquanto dormem e nós, assistimos a tudo e continuamos consumindo o lixo que as empresas produzem, inclusive, as mesmas que nos descartam no processo seletivo.

    Até lixo merece ser reciclado, e nós? Só por curiosidade (não pretendo mais proferir palestras, me enchi, vou para a roça, de verdade), visite este link e veja que temos opiniões parecidas:
    http://www.loudeolivier.com.br/produtos/index.htm

    BJKS para ambas, Andréa e Lígia!

  5. Pacco Says:

    Parabéns pela sinceridade quando disse: “Penso que o que importa ainda é um currículo “hipócrita”, onde são descritos ou omitidos fatos conforme o gosto do “freguês”. Será que não percebem que tem alguma coisa errada?”
    – Não sou um conhecedor na área de design; mas, um admirador.
    Sou apenas um compositor contemporâneo, inspirado por objetos e obras de arte. Tudo isso me lembrou Igor Stravinsky, quando ele disse:
    “A universalidade cujos benefícios vamos gradualmente perdendo é uma coisa inteiramente diferente do cosmo-politismo que vai se apossando de nós. A universalidade pressupõe a fecundidade de uma cultura que se espalha e se comunica por toda parte, enquanto o cosmopolitismo não oferece nem ação nem doutrina, e leva à passividade indiferente de um ecletismo estéril.” E continua mais adiante: “É a cultura que põe em evidência o pleno valor do gosto, dando-lhe chance de provar sua importância simplesmente exercendo-o. O artista impõe uma cultura a si mesmo e acaba impondo-a aos outros. É assim que a tradição se estabelece.”

    Estão de Parabéns!
    Um grande abraço.

  6. Filipa Says:

    Concordo perfeitamente.
    Sou designer de comunicação, e estou no primeiro ano de trabalho. Ao contrário do que lhe aconteceu, no meu caso fui recusada por ser nova de mais.

    Acabei o curso (de 4 anos) com 21 anos e nas várias entrevistas que fui diziam que gostavam dos trabalhos do portfolio, e que até demonstrava conhecimentos mas que era muito nova pra trabalhar.

    Então esforcei-me para fazer o curso no tempo certo e dar sempre o meu melhor, para colegas meus que apenas porque tinham mais um ou dois anos que eu fossem imediatamente aceites.

    Agora já tou a trabalhar, apenas porque aqueles que me deram a oportunidade de estagiar me recomendaram. Tudo porque foram os únicos que não olharam pra idade mas para aquilo que eu demontrei saber e fazer.

    Da minha turma de faculdade apenas dois estão inda desempregados e exactamente os dois mais talentosos, criativos, competentes e super profissionais.

    Ainda que seja dificil a selecção de profissionais acho que um pouco mais de bom senso, humanismo e inteligência ajudaría.

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