Nós podemos!

Motivada pelo e-mail de uma leitora, resolvi compartilhar minhas experiências profissionais na coluna dessa semana no site AcontecendoAqui. Leia as agruras de uma engenheira destemida e dê seus pitacos!

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MACHISMO NÃO MATA NINGUÉM.

05-11-07 Dia desses dias recebi um e-mail de uma moça que parecia muito desencantada, a Mariana. Ela estuda engenharia em Minas e está sofrendo muito com o preconceito de colegas e professores. Não consegue se enturmar, e, em pleno século XXI ainda tem que estudar muito mais que os colegas para ser tratada como igual. Não é a primeira vez que recebo uma mensagem assim, e pensei que compartilhar um pouco da minha experiência poderia ser útil para alguém que esteja vivendo situações semelhantes (na pele da Mariana ou na de seus colegas e professores).

Antes de fazer engenharia, fiz o segundo grau em uma Escola Técnica que serviu bastante para me aclimatar, já que sempre houve poucas meninas por lá. Na lista dos aprovados no vestibular em Engenharia Elétrica de 1984, eu era a única mulher.

Alguns professores declararam guerra abertamente logo no começo, perguntando, em tom de show de calouros, por que eu não estava matriculada num curso de corte e costura. Outro chegou a se oferecer para trancar a minha matrícula fora do prazo, já que eu iria reprovar na disciplina dele, que era muito difícil (valeu a pena me matar de estudar; dos 50 alunos, só passaram 15 e eu estava na lista). Havia também um que usava o meu peso e altura para calcular todos os problemas de física. Não passavam de meninos crescidos e inseguros, coitados.

Além dos professores, havia também alguns colegas que nunca se conformaram com as minhas boas notas. Apesar de me verem todos os finais de semana na biblioteca e copiarem as minhas listas de exercícios (isso quando não pediam cola), muitos gostavam de espalhar boatos maldosos. Já dá para imaginar: se eu passei, é porque rolou alguma coisa com o professor. Eu nunca me importei muito com isso, mas uma vez fiquei com meus brios seriamente feridos. Porque havia tirado uma das melhores notas da turma (um sofrido 6,4), circulou um rumor de que eu tinha passado um final de semana inteiro em uma ilha deserta com o professor (que, já mais para lá do que para cá, devia adorar esses comentários, achando-se o garanhão da vez). Que fossem tão criativos a respeito da minha vida particular eu até engolia, mas 6,4 por um final de semana inteirinho de proezas dignas da Bruna Surfistinha? É muito ofensivo que alguém tenha acreditado nisso! Mulher nenhuma merece uma nota dessas…

Atuante no centro acadêmico e editora do jornal do curso, acabei recebendo, na cerimônia de formatura, o Prêmio Liderança e Participação oferecido pelo Sindicato dos Engenheiros. Apesar disso, meus colegas não aceitaram que eu fosse a oradora da turma, justificando que eles tinham vergonha que uma mulher estivesse nessa posição com o fraco argumento de que seus pais estariam lá para vê-los. E você achava que infantilidade tinha limites…

A teoria largamente defendida pelos meus nobres colegas de que mulher que faz engenharia vira, no máximo, professora, caiu por água abaixo logo na segunda semana depois do baile, quando consegui meu primeiro emprego. Um currículo cheio de estágios me permitiu iniciar uma promissora carreira de programadora de robôs.

Aliás, esse capítulo é interessante. Fui contratada porque já tinha alguma experiência, mas vi preocupação nos olhos do meu chefe antes de fazer a primeira viagem. Ele não queria que eu fosse (apesar de ter sido contratada para isso) alegando que o lugar era sujo e barulhento. Era mesmo, mas eu adorei!

Essa foi uma época de desafios, onde meu trabalho consistia em implementar softwares em robôs lineares e máquinas automatizadas em vários lugares do país. Com recém-completados 23 anos, ainda não tinha muita noção de como a roupa poderia contribuir ou detonar a credibilidade profissional de alguém. As calças jeans e o rabo-de-cavalo certamente pesavam no olhar desconfiado do qual eu era alvo quando entrava nas fábricas. Lembro de situações de crise em que eu me concentrava ao máximo para não piscar a fim de impedir que caísse alguma lágrima, apesar de ter presenciado homens perderem o controle por seus erros quando a linha de produção parava e os funcionários tinham que ficar esperando para recomeçar o trabalho. A minha tática para conquistar os técnicos mais céticos e resistentes era desmontar o computador do robô e explicar pacientemente o funcionamento de cada peça, bem como o significado de cada linha de programa com o melhor dos meus sorrisos. Cedo descobri que isso era infinitamente mais eficiente do que cara feia ou discursos inflamados. Conquistei o respeito de muita gente boa desse jeito, inclusive porque precisava de voluntários para guardar a porta do banheiro (não havia sanitários femininos nos lugares que freqüentei nessa época).

Como quase toda mulher, é claro que recebi cantadas de clientes, mas nada que uma cara de burra distraída não resolvesse (é preciso providenciar sempre uma saída honrosa em situações delicadas – guerra aberta não traz benefícios a ninguém e sempre fui péssima de briga). Hoje, por ser mais madura e também por ter mudado de carreira, não enfrento tantos problemas (de certa forma, antes era mais emocionante).

De tudo, o que ficou, e que eu gostaria de dizer para as muitas Marianas é que as pessoas reagem de diferentes maneiras ao novo. E a reação delas vai depender muito da nossa atitude. Muitas vezes, vi nos olhos dos colegas a dúvida sobre o que fazer agora, já que eu não tinha apelado para o prático e previsível discurso feminista de coitadinha injustiçada. Contra o bom-humor e a competência ninguém pode. Força, Mariana!

 

www.ligiafascioni.com.br

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