Silêncio na festa

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A coluna dessa semana no Acontecendo Aqui fala sobre os barulhos do mundo e como o povo criativo de New York resolveu atacar o assunto.

SHHHHH….

31-07-07 Sendo uma pessoa predominantemente visual, tenho certa facilidade em me desligar dos ruídos do mundo. Poucos barulhos me atrapalham, principalmente se tenho alguma coisa interessante para ver, ler, observar ou contemplar. Isso não significa que eu despreze as boas músicas, o ronronar de gatinhos, o vento nas folhas, as ondas quebrando, os assobios bem executados, as palmas, os passarinhos inspirados e outros barulhinhos bons que sonorizam a vida da gente.

É claro que nem toda a concentração visual do mundo consegue fazer desaparecer as rabugices de crianças malcriadas, furadeiras no apartamento de cima, cachorros latindo ou veículos com o escapamento deteriorado, mas, em geral, não chego a me incomodar de verdade.

E veja: ruídos, às vezes, podem servir de companhia para quem se sente só. Não raro ouço gente dizer que deixa a televisão ligada para “fazer um barulho de fundo” quando está sozinho, ainda que seja domingo e esteja passando Faustão. Eu mesma prefiro trabalhar com o rádio ligado e, dependendo da música, paro tudo só para ficar ouvindo.

Bem, mas nem todo mundo é assim. Pessoas com tímpanos mais sensíveis sofrem muito com esse mundão barulhento. Meu marido se recusa a freqüentar restaurantes que insistem em manter televisões ligadas a todo volume (que ninguém assiste). Pessoas com formação musical são menos tolerantes a obras de construção civil na vizinhança ou telefones celulares tocando descontroladamente. Tenho amigos que se incomodam com o tom de voz ou o sotaque do extrovertido contador de histórias da mesa ao lado no bar. E, claro, desconheço quem consiga dormir com choro de neném.

Pois bem, esses ouvidos doloridos resolveram finalmente se organizar para mudar a situação. Soube pela newsletter Onne-a-day que dois artistas novaiorquinos cansados de não conseguirem um lugar para conversar em público por causa do barulho, bolaram uma solução muito original: é a Quiet Party.

A festa é original porque, ao contrário de tudo o que a gente já viu (e ouviu), não rola som nenhum. Aliás, nenhum mesmo, já que as pessoas são proibidas de falar e usar celulares. A comunicação toda flui por meio de bilhetinhos (convencionais mesmo, com lápis e papel – SMS também não vale). Você pensa que a festa é chata? Os organizadores dizem que é divertidíssimo, pois você consegue reviver aqueles tempos em que ficava mandando bilhetinhos para os colegas nas aulas chatas (eu tinha mania de fazer caricaturas dos professores com comentários maldosos, confesso). Como risadinhas e olhares marotos estão liberados, ninguém sai de lá chateado.

Olha, não é uma coisa para se fazer todo dia, mas eu tinha vontade de ir num lugar assim. No mínimo, haveria efeitos colaterais interessantes: você aprenderia a ouvir a si mesmo, a observar mais as pessoas, e, veja só, poderia reaprender a escrever a mão. Penso mesmo que poetas enrustidos poderiam se revelar, desenhistas talentosos, porém tímidos, finalmente fariam sucesso na balada, canhotos teriam um charme a mais e finalmente eu poderia usar todas as canetas coloridas que coleciono.

Trocar o auditivo pelo visual, pelo menos um dia poderia ser divertido. Mas só um dia, afinal, poucas coisas são tão empolgantes para se fazer em uma festa como dançar. E, para isso, é preciso música, de preferência num volume bem alto.

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