Sopa no bauru

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A coluna dessa semana no Acontecendo Aqui trata de duas maneiras diferentes de abordar um negócio: o modelo “sopa no pão” e o modelo “bauru“. Qual é o seu?

A SOPA E O BAURU

20-06-07 – Num passeio pela cidade de Canela, na Serra Gaúcha, meu marido e eu paramos para tomar um lanche em um café que parecia bem charmoso. Levei um susto quando abri o cardápio e, competindo com a comida, havia uma nota de esclarecimento que transcrevo aqui: “Ricardo Opptiz, proprietário do já afamado Café Canela e Restaurante, vem a público referir que seus direitos arrolados vem sofrendo desleal concorrência de outros cafés e bistrôs que aproveitaram sua notoriedade e seus nacionalmente conhecidos produtos Sopa no Pão, Massa no Queijo e Polenta no Queijo para imitá-los, desmerecendo assim os genuínos produtos. Assim a presente serve de alerta a você consumidor para que procure esses produtos somente no Café Canela Restaurante, pioneiro desde 1997”.

Abstraindo os erros de concordância e pontuação, pensei com meus zíperes que essa não era lá uma maneira muito simpática de receber os clientes. Além disso, servir sopa dentro de um pão italiano é uma receita mais velha que a minha querida e finada avó, fato que pode ser verificado em qualquer livro de receitas. O que o sr. Ricardo sugere, de maneira nada sutil, é que toda vez que me der vontade de tomar uma sopa no pão eu me dirija imediatamente para a cidade de Canela (mas só no estabelecimento dele, bem entendido). Tudo bem, ele registrou a marca “sopa no pão”, mas é só a marca nominativa, não a invenção (isso não é patenteável). Não me parece que isso tenha ficado suficientemente claro para o moço, já que, ao receber a conta, havia anexada uma folha com a famigerada nota de esclarecimento novamente, e reproduzida mais uma vez em um cartazete na saída do estabelecimento (há uma versão eletrônica no site, ele é incansável!). Como não tenho muita paciência com gente que tem mania de perseguição, não consegui me conter e fui até o caixa trocar umas palavras com o Sr. Ricardo. Perguntei se ele não se sentia desconfortável em colocar no cardápio pratos como o sanduíche bauru, que não eram de autoria dele. A resposta foi uma qualquer coisa não convincente, mas já que falamos em bauru, analisemos a diferença de abordagem.

O sanduíche bauru, talvez o mais copiado do Brasil, surgiu em 1933, no largo Paissandu, em São Paulo. Reza a lenda que um estudante da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, cujo apelido era Bauru (ele vinha dessa cidade), chegou no Bar Ponto Chic e pediu um sanduíche gostoso, pois estava com muita fome. E foi ditando para o seu Carlos, o cozinheiro, o que ele queria que tivesse dentro do pão francês: queijo derretido, rosbife e umas rodelas de tomate. O sanduba fez sucesso e o povo todo queria um sanduíche igual ao do “Bauru”, e aí ficou o nome. A receita original ganhou variações com presunto, fatias de pepino, orégano e outros mais, mas nem o Bauru, nem o cozinheiro e muito menos o seu Odílio, dono do bar, perderam noites de sono porque estava todo mundo copiando o sucesso. Pelo contrário. Estive no bar há alguns anos e lá, em vez de notas de esclarecimento, há vários cartazes e reportagens dizendo que ali havia nascido o verdadeiro Bauru e contava como havia se dado o fato. Em vez de importunar os clientes com choramingos injustiçados, o estabelecimento tirou proveito da fama e virou ponto turístico. Quando for a São Paulo, dê uma passada lá e coma um bauru original!

Não seria essa uma abordagem mais inteligente para o Café Canela, já que ele não tem franquias, filiais ou qualquer outra maneira de atender a todos os clientes famintos por uma sopa no pão? Em vez de passar por antipático e revoltado (deve ter brigado com todos os outros comerciantes da região, já que esse prato é comum lá), poderia ter algumas aulas de marketing com o seu Odílio Ceccini, dono do Bar Ponto Chic.

Esse fato me lembra a história da Apple e da Microsoft. A Apple, na sua primeira encarnação, usou a estratégia “sopa no pão” e se deu mal. Queria exclusividade, mas não tinha preço nem estrutura para tanto. Teve que se reinventar para sobreviver e hoje vê o mundo com outros olhos. Já a Microsoft-IBM usaram a abordagem “bauru”. Não é à toa que as plataformas PC hoje dominam o mercado.

Como será que você trata o seu negócio hoje: como uma “sopa no pão” ou como um “bauru”?

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